Maria Anna Schirmann (Viena, 19 de fevereiro de 1893 – Modliborzyce, 1942) foi uma física austríaca especializada em física de alto vácuo e geofísica. Desenvolveu instrumentos científicos patenteados e realizou pesquisas sobre radiação e espalhamento da luz. Sua carreira foi profundamente afetada pela discriminação de gênero e pelas políticas antissemitas do regime nazista, culminando em sua deportação e morte durante o Holocausto.

Biografia Schirmann nasceu em 1893 em Viena, então parte do Império Austro-Húngaro, em uma família de tradição intelectual e artística. Seu pai, Moritz Schirmann, era professor de música no Conservatório de Viena, e sua mãe trabalhava no Hospital Infantil St. Anna. Sua mãe era estudante de medicina e estagiava no hospital, já que mulheres não tinham permissão de obter um doutorado na área. Frequentou uma escola secundária para meninas em Viena e, a partir de 1914, estudou física e matemática na Universidade de Viena. Em 1918, concluiu seu doutorado com distinção; sua dissertação foi publicada na revista Annalen der Physik.

Carreira Após concluir o doutorado, Schirmann conduziu pesquisas em física aplicada, incluindo estudos sobre tubos eletrônicos e polarização celeste. Em 1918, Schirmann foi designada assistente de pesquisa no Laboratório Experimental de Rádio da Força Aérea Imperial e Real do Instituto Eletrotécnico da Universidade Técnica de Viena. Em 1920, recebeu uma bolsa para estudar na Universidade de Uppsala, na Suécia sob a supervisão de um membro do Comitê do Nobel de Física. Em 1922, obteve um cargo de assistente no Instituto de Física da Universidade de Viena, posição rara para mulheres na época e concedida apenas mediante autorização especial. Durante esse período, desenvolveu dispositivos experimentais e obteve várias patentes. Apesar de suas realizações, enfrentou obstáculos institucionais significativos. O passo seguinte em sua trajetória acadêmica seria a obtenção da habilitação, uma qualificação posterior ao doutorado que permitiria a continuidade de sua carreira como docente e pesquisadora. Para permanecer no corpo docente da Universidade de Viena, Schirmann precisava obter esse título, o que poderia ser feito por meio da apresentação de uma segunda tese ou de um conjunto consistente de publicações avançadas. Até então, apenas uma mulher havia alcançado a habilitação na instituição, e, em toda a Europa Central, somente três físicas haviam obtido essa qualificação antes da Segunda Guerra Mundial. Em 1928, a universidade prorrogou o contrato de Schirmann por mais dois anos, reconhecendo sua necessidade como professora, mas sob a condição de que não buscasse a habilitação. Ainda assim, em maio de 1930, ela formalizou sua candidatura, apresentando um portfólio composto por nove artigos publicados e diversas patentes. Embora o regulamento previsse a possibilidade de uma habilitação, a comissão avaliadora concluiu que não havia coesão suficiente entre seus trabalhos. A decisão também se apoiou em um parecer especializado bastante crítico, posteriormente considerado infundado. Diante do grau de discricionariedade envolvido, é provável que o resultado tenha sido influenciado pelo ambiente hostil da universidade, marcado pela atuação de redes antissemitas que buscavam dificultar a progressão de acadêmicos judeus e politicamente dissidentes. Como consequência, foi obrigada a deixar a universidade e passou a trabalhar de forma independente, mantendo um laboratório próprio e atuando como professora particular. Na década de 1930, contribuiu, juntamente com outros 40 cientistas, para o Handbuch der Geophysik, editado inicialmente por Beno Gutenberg e posteriormente por Franz Linke. Seu artigo tratava de problemas de radiação solar e teorias do espalhamento da luz. Gutenberg, que tinha ascendência judaica, logo deixou a Alemanha rumo ao Instituto de Tecnologia da Califórnia e, em 1937, perdeu os direitos sobre o manual. Franz Linke, juntamente com outro meteorologista, assumiu a série, sendo Linke responsável pelo volume "Física da Atmosfera", que incluiria o artigo de Schirmann sobre problemas de radiação no sol e no céu e teorias sobre a dispersão da luz.

Segunda Guerra Mundial Após a anexação da Áustria pela Alemanha nazista em 1938, Schirmann foi impedida de continuar suas atividades científicas. Tentou emigrar para os Estados Unidos com apoio de organizações como o Emergency Committee in Aid of Displaced Foreign Scholars, um grupo de Nova York, mas não conseguiu obter uma posição acadêmica que viabilizasse o visto. As cotas para imigrantes germano-austríacos foram preenchidas ou quase preenchidas em 1938, 1939 e 1940. O comitê também não estava convencido de que a pesquisa laboratorial de Schirmann a qualificava como professora, um requisito imposto pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos para a concessão de vistos fora da cota. Ela também tentou correspondência com organizações de auxílio a refugiados e colegas no exterior, todas sem sucesso. Quando as universidades americanas não demonstraram interesse em Schirmann, o comitê tentou outra via: uma nomeação na Faculdade de Engenharia da Universidade das Filipinas. Enquanto isso, Schirmann havia recebido uma oferta de emprego temporário em um laboratório de meteorologia da Universidade de Oxford. A Federação Internacional de Mulheres Universitárias, da qual Schirmann era membro, providenciou o emprego em Oxford, mas com a condição de que ela tivesse um emprego nos Estados Unidos garantido em um ou dois anos. Schirmann esperava que o comitê pudesse conseguir um emprego nos Estados Unidos para que ela pudesse aceitar o emprego em Oxford e deixar Viena imediatamente. Em julho de 1940, Schirmann soube que seus esforços para conseguir um cargo na Universidade das Filipinas haviam fracassado. Seis meses depois, em 5 de março de 1941, Schirmann, juntamente com outros mil judeus, recebeu ordens para se apresentar em um prédio escolar no número 35 da Castellezgasse, em Viena, e foi levada para a estação de trem de Aspang. Ela era a prisioneira número 107. O grupo foi deportado para Modliborzyce, na Polônia ocupada, para onde as autoridades alemãs levaram cerca de 1.200 judeus de Viena. No gueto, foi forçada a vender seus pertences para sobreviver e enfrentou condições de extrema privação. Franz Linke, editor do Handbuch der Geophysik, sabia da trágica situação de Schirmann, mas estava interessado apenas em seu trabalho científico. Ao saber que ela fora deportada, enviou um assistente, acompanhado por um oficial da SS, para tentar obter seu manuscrito incompleto. Linke tentou terminá-lo sozinho, mas não conseguiu, pois precisava da contribuição de Schirmann. Quando Schirmann respondeu que era impossível realizar qualquer trabalho científico nas condições do gueto, Linke tomou uma atitude incomum e arriscada: escreveu ao chefe alemão do distrito de Lublin (um dos quatro primeiros distritos nazistas da região do governo geral da Polônia ocupada) solicitando que Schirmann fosse transferida para uma cidade maior, “de preferência sua cidade natal, Viena”, para que pudesse terminar o trabalho. As autoridades não deram importância ao pedido, mas questionaram Linke sobre seu pedido de tentar libertar uma mulher judia. Linke reagiu e se justificou que, quando soube pela primeira vez, em 1937, que Schirmann era judia, tentou removê-la do projeto, mas foi informado de que ela era a única pessoa que poderia escrever o artigo. Linke disse que convencera a editora do manual a obter uma permissão especial para publicar o trabalho de uma judia. Mais tarde, ele convenceu outros ministérios do Reich a concordarem que o artigo de Schirmann poderia ser publicado anonimamente. Ele alegou que a publicação seria um motivo de orgulho para o povo alemão e que era importante publicar antes dos norte-americanos. Dois dias após enviar o relatório às autoridades nazistas, Linke escreveu novamente para dizer que havia recebido as correções de Schirmann. Em 9 de maio de 1942 ele escreveu:

Schirmann já estava em Modliborzyce havia quatorze meses. O oitavo volume do Handbuch der Geophysik foi publicado, contendo o artigo de 100 páginas de Schirmann, mas ele não trazia seu nome.

Morte Não se sabe se Schirmann sucumbiu à desnutrição, às doenças ou aos repetidos ataques da polícia alemã e da SS contra os moradores do gueto. Talvez tenha sobrevivido por mais cinco meses, até a liquidação do gueto, em 8 de outubro de 1942, quando os idosos e doentes foram mortos no local e o restante enviado para o campo de extermínio de Bełżec.

Principais contribuições As contribuições científicas de Schirmann incluem pesquisas em física de alto vácuo, desenvolvimento de instrumentos experimentais patenteados, estudos sobre radiação solar e espalhamento da luz e, trabalhos em física atmosférica e geofísica. Ela também publicou um livro sobre métodos e instrumentos de medicina elétrica e desenvolveu processos técnicos, incluindo um método de resfriamento de máquinas.

Referências