Resumo Cándida Rosa Matus (1850-1931) foi uma poetisa e compositora nascida na cidade de Masaya, Nicaragua em 1850. Foi uma das precursoras da poesia nicaraguense, sendo frequentemente conhecida como “a poetisa mística”, em razão da densidade espiritual e simbólica de suas produções. Ficou conhecida como compositora das letras de grande parte das canções associadas à La Gritería, festa da cultura popular e religiosa, símbolo da identidade nicaraguense, celebrada anualmente no fim de novembro e início de dezembro

Infância e Juventude Cándida Rosa Matus nasceu em 1850 na cidade de Masaya, importante centro cultural da Nicarágua, filha de Hispe René Matus e Ana Rosa Blanco . A cidade é oficialmente conhecida como Patrimônio Cultural da Nação e Capital do folclore nicaraguense. Tal reconhecimento vem da importância de suas expressões culturais, tais como a música de marimba, as danças tradicionais, o artesanato e a tradição culinária. A família de Cándida Rosa Matus esteve inserida na vida política, cultural e religiosa de Masaya. Entre os vínculos familiares mais proeminentes destacam-se Manuel Coronel Matus (1864-1910), escritor e diplomata que exerceu cargo de ministro de Relações Internacionais e Instrução Publica durante o governo de José Santos Zelaya (1893-1909). Além do advogado e historiador Nicolás Buitrago Matus (1890-1895). Seu entorno familiar foi decisivo no seu interesse na escrita literária e religiosa, muitos de seus textos foram escritos como letras destinadas a composições devocionais . Como outras mulheres do século XIX, sua ação intelectual ocorreu no espaço doméstico e religioso. Não há registros documentais que indiquem que foi casada, sendo Cándida Rosa Matus frequentemente referida como “solteirona”. O termo, contudo, é carregado de forte carga pejorativa, articulada à normatividade dos ideais de feminilidade baseado na maternidade e no casamento. No contexto de sua época, o termo servia de marcador social das mulheres não casadas, sugerindo tanto uma suposta busca contínua por um cônjuge quanto a ideia de inadequação daquela mulher para o matrimônio. Cándida era irmã de Josefa Matus, conhecida como Chepita e mãe do compositor Alejandro Vega Matus (1875-1937). Após a morte prematura da irmã, Cándida foi responsável pela criação de seu sobrinho. Um dos aspectos mais conhecidos de sua vida pessoal é sua relação com o sobrinho, considerado um dos maiores artistas nicaraguenses. Ela participou da formação cultural e musical inicial do sobrinho, em um ambiente doméstico onde havia música, poesia e práticas religiosas. Essa convivência explica a colaboração posterior entre os dois: ela escrevia letras de hinos marianos, e ele compunha a música dos cânticos religiosos. Em 2006 foi publicado pelo autor espanhol Santiago Fajardo, trecho do poema escrito por Cándida Matus, em homenagem a seu sobrinho Alejandro Vega Matus. Expressões como “objeto idolatrado”, “escultura precisa de amor” e “meu amoroso lábio imprimirá constante beijo de afeto” demonstram o amor maternal que ela sentia por seu sobrinho. "Anjo da paz, objeto idolatrado Preciosa escultura de amor, Os louros do teu ser crescerão Ao redor do teu berço feliz. Ao redor do teu templo inocente Meus lábios amorosos imprimirão constantemente o beijo da minha afeição, e teu peito se tocará com o meu coração pulsante. Do teu berço ao meu túmulo Que o eco do meu coração amoroso te alcance..."

Trajetória intelectual (Obras) Cándida Rosa Matus insere-se em uma geração pioneira de poetisas nicaraguenses cuja produção literária se desenvolveu em um ambiente em que o papel social das mulheres restringia-se à função de “produtoras de bons cidadãos para a nação”. Nesse contexto, a participação feminina tanto no campo literário quanto na imprensa oitocentista revelou-se não apenas limitada, mas também desvalorizada, o que contribuiu para que suas obras fossem, em grande medida, publicadas de forma tardia, dispersa ou fragmentada. Ainda assim, foi possível identificar a existência de vinte escritos atribuídos à Cándida Rosa Matus. María Teresa Sánchez (1918–1994), poetisa, promotora cultural e artista plástica nicaraguense, afirma que a poesia de Cándida Rosa Matus "é fruto de um instinto inato para a musicalidade, um fenômeno não incomum na Nicarágua". Ao situar o lócus de enunciação da autora na confluência entre o espaço doméstico e a religiosidade católica, Sánchez caracteriza sua escrita como composta por “versos com sabor caseiro”, ao passo que outros seriam impregnados por “um aroma de incenso, que evocam o silêncio isolado das catedrais”. Cándida Matus destacou-se no âmbito da tradição musical religiosa católica nicaraguense, notadamente pela composição de letras destinadas a cânticos devocionais em honra à Virgem Maria, com ênfase nas celebrações da Puríssima Concepción. Suas produções inserem-se de maneira orgânica no repertório musical associado às festividades religiosas nacionais, em especial as celebrações marianas e La Gritería, manifestação popular que consiste em uma novena dedicada à Imaculada Conceição de Maria, realizada entre os dias 28 de novembro e 7 de dezembro.

A festividade constitui um símbolo da identidade nacional, sendo considerada a maior expressão cultural de dezembro, além de singular no contexto das Américas e do mundo católico, uma vez que é celebrada em todo o território nicaraguense e no exterior, onde há presença de comunidades migrantes. A tradição teria se originado no bairro de San Felipe, na cidade de León, em 7 de dezembro de 1857, por iniciativa de Monsenhor Gordiano Carranza, responsável por incentivar a ornamentação de altares, a entoação de cânticos e a difusão do célebre brado ritual: “¿Quién causa tanta alegría? ¡La Concepción de María!” (“Quem traz tanta alegria? A Imaculada Conceição de Maria!”). Elementos como os brindes festivos, conhecidos como “gorras”, bem como a distribuição de doces, frutas e alfajores, compõem igualmente esse universo simbólico e ritualístico. As festas Purísima e Pastorela se realizam no município de Belém, departamento de Rivas, ambas as festividades são organizadas nos bairros responsáveis pela novena, que termina com a procissão com imagens de anjos, arcanjos e pastores. É um espetáculo repleto de teatro e danças folclóricas, uma celebração de promessas e devoção. A novena termina na igreja com a celebração da missa da meia-noite, conhecida como Missa do Galo, no dia 24 de dezembro . Os cantos escritos por Cándida Rosa Matus continuam sendo interpretados nessas celebrações, a exemplo da letra intitulada “tu gloria, tu gloria”, que se descreve a seguir: "Vossa glória, vossa glória Vossa glória proclamamos Ó Virgem pura e formosa, estrela brilhante do céu, a quem todos amamos! Vossa glória, vossa glória Vossa glória proclamamos. Bendita seja a vossa pureza que assim seja eternamente, pois todo o Deus se deleita em tão graciosa beleza. A vós, princesa celestial, Santa Virgem Maria, ofereço neste dia minha alma, minha vida e meu coração. Olhai para mim com compaixão, não me abandoneis, minha Mãe." A canção Ave de Lourdes, introduzida na Nicarágua no final do século XIX, “adquire [...] o direito de alcançar o estatuto de cidadania nicaraguense, na medida em que seu uso se difundiu por todo o território nacional”. A adaptação desse hino é igualmente atribuída à Cándida Rosa Matus, evidenciando sua atuação na reconfiguração de repertórios devocionais de circulação transnacional. "Ave Maria de Lourdes Vigiando pela Nicarágua Em Lourdes, na França, ela estabeleceu seu trono, a Rainha do Céu, a Mãe de Deus, Ave, Ave, Ave Maria Ela usava um vestido branco Com uma faixa azul presa na cintura Ave, Ave, Ave Maria As crianças sempre foram um ímã para o seu amor E lá ela mostrou a Bernadette a sua glória Ave, Ave, Ave Maria". Nesse contexto, a música e a letra de grande parte dos cânticos entoados nessas celebrações são atribuídas a Cándida Rosa Matus, frequentemente referida como uma “poetisa mística”, cujas composições foram posteriormente musicadas por seu sobrinho Alejandro Vega Matus.

Morte Persistem divergências quanto ao ano de seu falecimento, com registros que variam entre 1928 e 1931.

Legado A inserção de Cándida na cultura nacional nicaraguense se destacou pela citação de seus poemas em canções por seu sobrinho Alejandro Vega Matus (1875 -1937), um dos principais cantores nicaraguenses, durante as festas da La Gritería e a Purísima e Pastorela. Do conjunto de vinte textos atribuídos à autora, oito poemas foram publicados postumamente no livro Poemas regionales y amistosos.Esse livro inclui uma seção póstuma dedicada à poeta Cándida Rosa Matus, homenagem relativamente comum na poesia feminina centro-americana da primeira metade do século XX. A relevância de Cándida Rosa Matus no universo das composições religiosas remete à centralidade do catolicismo na sociedade nicaraguense, bem como à difusão do ideal de pureza mariana e às dinâmicas de subordinação sexo-gênero que alimentam e reproduzem o patriarcado e o sexismo no imaginário social. Nesse quadro, a hegemonia do catolicismo no país apenas começou a ser tensionada durante o governo de José Santos Zelaya, cujo projeto político implicou a ruptura com o acordo de 1861 e a consequente redução da esfera de influência da Igreja Católica. Tal reconfiguração não se deu sem resistências, uma vez que agentes eclesiásticos também se posicionaram de maneira crítica em relação ao regime de Zeleya.

Referências